O que ainda precisamos perder para nos preocuparmos com o Cerrado?

Desmatamento no Cerrado<br />© André Dib/WWF-Brasil” border=”0″ align=”left” hspace=”4″ vspace=”2″ /></a><em>Por Julio César Sampaio é coordenador do Programa Cerrado Pantanal do WWF</em></p>
<p>O Cerrado é o bioma brasileiro mais desmatado no Brasil, superando em duas vezes o índice de desmatamento da Amazônia. Segundo dados recém-lançados pelo Ministério do Meio Ambiente, o Cerrado perde quase 1 milhão de hectares de vegetação nativa por ano. Se esse ritmo alarmante se mantiver, haverá, até 2050, o maior processo de extinção de espécies já registrado na história da ciência global, com perdas três vezes maiores do que as já registradas desde 1500. </p>
<p>Uma de cada quatro espécies de fauna que estão ameaçadas de extinção vive no Cerrado, o que significa que um total de 137 espécies estão em risco de desaparecer. Mesmo que paremos o desmatamento hoje, mais de 50% do bioma já foi dizimado e o que resta está comprometido pela expansão da nova fronteira agrícola nos estados do Maranhão, do Tocantins, do Piauí e da Bahia. Conhecida como Matopiba, essa é uma das poucas regiões que ainda concentram grande quantidade de vegetação nativa preservada.</p>
<p>A degradação do bioma não significa apenas extinção de espécies, pela fragmentação e falta de conectividade entre as áreas de remanescentes florestais – tanto espécies vegetais quanto animais dependem dessas conexões e das trocas genéticas que a conectividade possibilita para garantir a viabilidade de importantes populações na região –, significa também aumento nas emissões de gases de efeito estufa do país, o exaurimento de um modelo produtivo insustentável e ameaças a comunidades tradicionais e indígenas associadas.</p>
<p>Os impactos dessa devastação já estão evidentes na falta de água em Brasília, nas estiagens e secas mais severas como no caso da região do Matopiba, que apresentou queda de 30% na safra de grãos de 2015-2016, na <a href=escassez hídrica desde 2013 na região do São Francisco, fazendo com que os reservatórios das hidrelétricas chegassem aos menores índices da história, afetando a vida de nove em cada dez brasileiros que consomem eletricidade produzida com águas do Cerrado.

Nem parece que estamos falando do Cerrado, berço das águas, considerado a caixa-d’água do Brasil. No bioma nascem as principais bacias do país, que vertem as águas que alimentam as bacias do São Francisco, do Tocantins-Araguaia, do Paraná e Paraguai – esta última, tão importante para a vida no Pantanal.

Diante dessa situação, é urgente buscar uma série de soluções que precisam ser adotadas por toda a sociedade, pelos governos e pelo setor privado. Ações como o uso de pastagens degradadas para expansão dos plantios de oleaginosas e eucalipto, adoção da rastreabilidade das cadeias produtivas do agronegócio e acordos setoriais evitando o consumo de produtos advindos do desmatamento no Cerrado.

Mais do que isso, é fundamental criar programas de monitoramento periódico do desmatamento, a exemplo do Prodes-Cerrado, a fim de informar a taxa de perda de vegetação anual, ajudando na prevenção e combate do desmatamento e no fortalecimento de políticas de financiamento para recuperação de áreas de Cerrado em propriedades privadas, buscando atender aos passivos ambientais em conformidade com o Novo Código Florestal.

Faz-se necessário, ainda, o cumprimento das metas de Aichi da Convenção da Diversidade Biológica, em que o Brasil é signatário e prevê que 17% das zonas terrestres e de águas continentais devem estar protegidas por lei, já que no Cerrado o percentual de áreas protegidas é de apenas 7,73%, sendo que na categoria de proteção integral o índice é de míseros 2,89%. É urgente, também, aprovar um marco legal de proteção do bioma, caso da aprovação da PEC 504/2010, que trata de incluir na Constituição Federal o Cerrado e a Caatinga como patrimônio nacional, e do PL 25/2015, que dispõe sobre a conservação e a utilização sustentável da vegetação nativa do bioma.

Precisamos de um grande pacto contra a destruição do Cerrado, do contrário, em alguns anos, restará muito pouco desse bioma tão precioso. Está na hora de assumir que a agropecuária só pode se expandir sob pastos degradados e não sob ecossistemas naturais, ou seja, estabelecer um pacto pelo desmatamento zero no bioma, de modo que possamos salvar o Cerrado e fazer algo de concreto em prol do uso inteligente e sustentável. É o momento de a sociedade brasileira fazer uma escolha. Estamos atrasados.
 

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