Nova maré para o Rio Doce: um rio de volta à vida

A longo prazo, as empresas têm tudo a ganhar com um uso de recursos naturais que beneficia a toda a sociedade. Os esforços para reabilitar a bacia hidrográfica do Rio Doce no Brasil, após a tragédia do rompimento da barragem de Fundão em 2015, são um exemplo, escreve em quanto abre esta semana o 8º Fórum Mundial da Água em Brasília Yolanda Kakabadse, presidente do Painel Rio Doce, que vai oferecer conselhos sobre os esforços de restauração.

O reservatório de Candonga, situado a jusante do local da barragem, foi fortemente afetado pelo rompimento

Em novembro de 2015, a região da cidade de Mariana, Minas Gerais, foi atingida por um desastre. A barragem de retenção de resíduos de Fundão, na mina da Samarco, quebrou, derramando milhões de litros de água, lama e detritos a 650 quilômetros a jusante do Rio Doce e terminando seu escoamento mortal no Oceano Atlântico. O rompimento da barragem, assim como a onda de lama, mataram 19 pessoas e causaram enormes danos econômicos e sociais às comunidades ribeirinhas do Rio Doce, afetando os peixes e toda a vida aquática. Ainda não conhecemos a extensão total dos danos causados a ecossistemas e recursos hídricos críticos na região. No entanto, sabemos que foi um dos piores desastres ambientais do país.



O Rio Doce desaguando no Atlântico, 2 semanas depois do rompimento da barragem



Photo: Arnau Aregio CC4.0


Hoje, o Rio Doce continua a carregar altos níveis de sedimentos resultantes desse rompimento, apesar dos contínuos esforços para revegetar e restaurar as margens do rio na parte superior da bacia hidrográfica. Esses sedimentos podem prejudicar os meios de subsistência locais, a saúde humana, a infraestrutura, as instalações hidrelétricas e de tratamento de água, bem como os ecossistemas.

Os recursos hídricos são medidos em termos de qualidade e quantidade, e a bacia do Rio Doce perdeu os dois. Durante o período em que a barragem se rompeu, o Brasil enfrentava uma das piores secas dos últimos 80 anos, o que já afetava fortemente o meio ambiente e as populações, especialmente no Sudeste do país, onde corre o Rio Doce.

As comunidades da bacia hidrográfica do Rio Doce viviam com um rio poluído muito antes do rompimento da barragem.

Mas as comunidades da bacia hidrográfica do Rio Doce viviam com um rio poluído muito antes do rompimento da barragem. Ao longo dos anos, o rio sofreu com a acumulação de impactos devido à mineração insustentável, ao desmatamento, a uma agricultura mal administrada, ao tratamento inadequado de esgoto na maioria das comunidades ao longo do rio e a outros problemas. Uma forte legislação para garantir a proteção do rio já estava em vigor, mas, na maioria das vezes, faltava uma aplicação adequada. Mesmo mais de dois anos após o rompimento da barragem de rejeitos de minério, o governo e as comunidades locais ainda têm dificuldade para enfrentar os desafios nesta bacia hidrográfica.

Uma das minhas tarefas, como presidente do Painel Rio Doce liderado pela UICN, é ajudar a orientar os esforços para reabilitar a bacia hidrográfica e garantir uma boa qualidade de vida para as comunidades afetadas durante os próximos cinco anos. O Painel é encarregado de manter uma visão independente sobre restauração, em uma perspectiva de paisagem, como um passo em direção à sustentabilidade a longo prazo. Apoiando-se nas descobertas científicas mais recentes e usando uma abordagem interdisciplinar, o Painel busca identificar práticas e políticas que ajudem as comunidades locais a reconstruir seu ambiente natural e seus meios de subsistência. As descobertas do Painel informarão a Fundação Renova – legalmente mandatada pelo governo brasileiro para liderar a restauração da bacia depois do rompimento da barragem – bem como as empresas de mineração BHP e Vale, que são proprietárias da mina da Samarco.



Yolanda Kakabadse examina a paisagem durante uma visita à bacia hidrográfica do Rio Doce



Photo: Rio Doce Panel


Nos anos seguintes ao desastre, a situação da bacia do rio doce tornou-se, compreensivelmente, um assunto extremamente controverso e emocionalmente carregado no Brasil e no exterior. É por isso que uns conselhos objetivos e científicos, bem como uma abordagem que reúne comunidades locais, empresas e governo, são ainda mais cruciais. Para que os esforços de restauração sejam bem sucedidos, precisamos de parceiros trabalhando juntos, convencidos da importância de restaurar a saúde do rio para o benefício de todos, que ajudarão a garantir que a legislação seja devidamente implementada e que os programas nacionais existentes sejam executados quando aplicável.

A maioria das empresas do mundo devem reconhecer que é melhor prevenir um desastre do que responder a um desastre que já aconteceu.

Sem água, não há vida nem atividade econômica. Lembre-se que o Rio Doce não é apenas um rio ou uma bacia hidrográfica : é a terra de mais de 3 milhões de pessoas que dependem do rio para água, comida, meios de subsistência, lazer e muito mais. Esta bacia hidrográfica também é crucial na região pois sustenta uma ampla gama de atividades econômicas desde pecuária, produção de café e cacau, fabricação de aço e mineração.



A produção de café é baseada em recursos hídricos limpos e abundantes



Photo: Marcelo Silk Screen CC1.0


Mais empresas de todas partes do mundo devem reconhecer que é melhor prevenir um desastre do que responder a um desastre que já aconteceu. A Samarco, por exemplo, já se comprometeu a gastar US$ 5 bilhões para cobrir os custos de reparação dos danos causados ​​pelo rompimento da barragem. Quando somamos os outros custos relacionados à perda de empregos, de renda, de desligamento da usina hidrelétrica e outros, esta afirmação é confirmada: a prevenção é muito mais barata do que a restauração.

As empresas de mineração, em particular, sabem que suas ações devem ir além da responsabilidade social das empresas se quiserem manter sua “licença social” para funcionar. Na bacia hidrográfica do Rio Doce, como em outros lugares, é do interesse a longo prazo do setor privado garantir que todos os setores da sociedade – especialmente as comunidades locais – se beneficiem de atividades econômicas baseadas no uso de recursos naturais. Hoje, as empresas precisam gerenciar seus recursos e minimizar seus impactos no meio ambiente, para o bem maior da sociedade. Em outras palavras, eles não devem apenas se esforçar para ser o melhor NO planeta, mas também o melhor PARA o planeta.

A UICN e seus membros têm a responsabilidade de garantir que as leis sejam efetivamente implementadas para proteger rios como o Rio Doce e as comunidades que dependem deles.

Enquanto as delegações se reúnem para o 8º Fórum Mundial da Água de 2018, com o objetivo comum de proteger este valioso recurso global, esperamos que os esforços conjuntos para restaurar uma água limpa e segura na bacia do Rio Doce inspirem outras ações além do Brasil. Todos os envolvidos na reconstrução da bacia hidrográfica do Rio Doce gostariam de se tornar um modelo para o Brasil – um modelo que protege a qualidade do rio e o meio ambiente e, portanto, a saúde das pessoas; um modelo que respeite também a legislação e a aplicação da lei. A UICN e seus membros no mundo inteiro têm a responsabilidade de garantir que as leis sejam efetivamente implementadas para proteger rios como o Rio Doce e as comunidades que dependem deles.


A equatoriana Yolanda Kakabadse é ambientalista e presidente do Painel Rio Doce. Ela foi presidente da UICN de 1996 a 2004, ministra do Meio Ambiente do Equador de 1998 a 2000 e presidente da WWF International de 2010 a 2017. Ela é também a fundadora da Fundação Futuro Latinoamericano. A Sra. Kakabadse recebeu o “Golden Ark Order” (1991), “Global 500 Award” do PNUMA (1992), o Prêmio Zayed (2001) e recebeu o título de Doctor of Science (ScD) Honoris Causa da Universidade de East Anglia (2008), entre outras honras.

Topic: 
Water
Author: 

Yolanda Kakabadse is an Ecuadorian environmentalist and Chair of the Rio Doce Panel. She was President of IUCN from 1996 to 2004, Ecuador’s Minister of the Environment from 1998 to 2000, and President of WWF International from 2010 to 2017. She is also founder of Fundación Futuro Latinoamericano. Ms Kakabadse received the Golden Ark Order (1991), the Zayed Prize (2001), the UN Environment Programme’s Global 500 Award (1992), and a Doctor of Science (ScD) honoris causa from the University of East Anglia (2008), among other honours.

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