No Brasil, papa Francisco revira o protocolo

É difícil imaginar uma situação mais tensa do que essa para as autoridades brasileiras. Ainda em choque devido às manifestações populares de junho, elas tiveram de aguentar o anúncio de uma mudança na programação do papa Francisco na primeira viagem ao exterior de seu pontificado.

A reportagem é de Nicolas Bourcier, publicada pelo jornal Le Monde e reproduzida pelo portal Uol, 23-07-2013.

O ex-arcebispo argentino não quis papamóvel blindado para percorrer as avenidas do centro da cidade depois de chegar ao aeroporto do Rio de Janeiro, na segunda-feira (22) à tarde, locais ainda marcados pelos violentos confrontos das últimas semanas entre manifestantes e forças policiais. O papa quis ter um primeiro contato com “o povo brasileiro” em vez de seus representantes oficiais, anunciaram os organizadores da visita.

O encontro com a presidente Dilma Rousseff, o prefeito da cidade, Eduardo Paes, e o governador do Estado, Sérgio Cabral, muito criticado pelos manifestantes, ocorreria um pouco mais tarde, no Palácio Guanabara, sede do governo do Rio, ele mesmo palco de vários conflitos. Agora, manifestantes pretendem protestar contra a corrupção na política, bem como contra os 50 milhões de euros em verba pública destinados à organização da Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

Papa não quer armas “visíveis”

Na semana passada, o papa Francisco já havia conseguido irritar os serviços de segurança ao afirmar que não queria ficar cercado de homens segurando armas “visíveis” durante sua cerimônia de recepção, na noite de quinta-feira, na praia de Copacabana, onde são esperados quase 1,5 milhão de pessoas. Seria uma exigência inapropriada para certas autoridades, que lembram que, apesar de uma queda nos registros de violência, a cidade se caracteriza por um dos mais elevados índices de homicídios do país.

No dia 18 de julho – mesmo dia em que o bairro chique do Leblon passou por mais uma noite de violência nas proximidades da residência do governador Cabral -, os órgãos de segurança do Estado e o Ministério da Defesa haviam admitido estar encontrando dificuldades para definir um dispositivo de segurança eficaz para a visita do papa. “Eu queria poder, mas não sei fazer milagres”, simplesmente disse Martha Rocha, chefe da polícia civil do Rio.

O secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, repetiu essas declarações à sua maneira, afirmando que o Estado estava pronto para receber o papa –28 mil policiais e militares foram mobilizados–, mas explicando que tinha verdadeiras dificuldades para criar uma estratégia de segurança contra os manifestantes. E acrescentou: “Não existe nenhum protocolo no mundo que diga como reagir com situações de turbas e conflitos”.

Dilma Rousseff bem que poderia passar sem essas complicações. Em queda nas pesquisas (cerca de 30 pontos perdidos desde o início de junho), a presidente tem acompanhado bem de perto a organização da JMJ. Ela procura saber sobre o estado de mobilização dos grupos de protestos e até das organizações evangélicas, algumas delas tendo criticado também o custo da visita papal.

Acima de tudo, Rousseff tem buscado evitar novas tensões políticas entre o poder Executivo e a igreja neste momento em que, justamente, o governo espera iniciar uma reaproximação com o Vaticano –após a crise de 2010. Na época, em plena eleição presidencial, membros do governo e do PT (Partido dos Trabalhadores, de esquerda) de Dilma Rousseff haviam criticado abertamente a igreja, então dirigida pelo papa Bento 16, condenando sua ingerência nos debates políticos. Na ocasião, o papa vilipendiou os projetos a favor da legalização do aborto e exortou os líderes religiosos a fornecerem aos fiéis orientações de voto para o segundo turno da eleição.

“Igreja pobre para os pobres”

Com a eleição, no dia 13 de março, de um papa argentino que quer encarnar “uma igreja pobre para os pobres” e que mantém um discurso centrado nas desigualdades sociais e no combate à fome –todos temas caros às autoridades de Brasília–, a presidente espera virar a página. Uma prova de seriedade é o fato de um dos principais interlocutores do governo com a igreja e com os movimentos sociais ser Gilberto Carvalho, o chefe de gabinete da Presidência.

Na quarta-feira (24), Rousseff ainda deve acompanhar o papa ao hospital São Francisco da Penitência, um centro para dependentes químicos que recebe financiamentos do governo federal. Por enquanto não há informações quanto à participação de Dilma Rousseff em qualquer cerimônia religiosa, nem quanto à sua presença durante o último discurso do papa no domingo à noite no aeroporto, antes de voltar a Roma.

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