"Houve convergência nos discursos", constata bispo

Um dos expoentes da igreja progressista no Brasil, o bispo de Jales (SP), dom Demétrio Valentini, surpreendeu-se pela objetividade e brevidade do primeiro discurso do papa Francisco no Brasil. Para dom Demétrio, o pontífice traz a perspectiva de retomada da renovação da igreja, que foi empreendida com entusiasmo pelo papa João XXIII, mas que se arrefeceu nos papados de João Paulo II e de Bento XVI. Na análise do religioso, desenha-se para o futuro a superação de desentendimentos acontecidos dentro da Igreja Católica.

A entrevista é de Cristiane Agostine e publicada pelo jornal Valor, 23-07-2013.

O papa iniciou seu discurso dizendo que não trazia ouro nem prata, mas a mensagem de Cristo. Que sinais o senhor viu nesse primeiro pronunciamento?

O discurso surpreendeu pela brevidade, objetividade e pela maneira como procurou sintonizar o espírito de convivência ao dizer que vai entrar pela porta do coração do brasileiro. Ele soube cativar a simpatia dos brasileiros e apontar de imediato a intenção principal dessa visita que é a valorização do jovem e dos valores que podem sustentar motivações para suas vidas. Começou bem. Nossos irmãos evangélicos se preocupam com o fato de o chefe da Igreja Católica ser também chefe de Estado, mas ele sinalizou que a missão dele não é ligada a debater questões de ordem econômica, política, mas sim da ordem de valores. Não cabe à igreja administrar recursos materiais, mas apontar valores e ajudar as pessoas a perceber que os valores são indispensáveis. Ainda mais para a juventude, que está sujeita a riscos sérios como as drogas.

A ideia de uma igreja pobre para os pobres pode fazer com que setores mais progressistas voltem a ter mais força e espaço?

Sim, está sinalizado uma esperança muito concreta de superar os desentendimentos que aconteceram, sobretudo com a expressão de uma teologia que não coincide com a europeia (Teologia da Libertação). Nesse sentido a gente percebe que há uma vontade de reconciliação e muitos teólogos que foram colocados à margem se sentem à vontade para renovar as esperanças de que se possa retomar o impulso renovador do Concílio Vaticano II, que foi empreendido com muito entusiasmo por João XXIII e que nos últimos anos experimentou um arrefecimento. Essa é a esperança maior que se desenha pela frente. Com esse papa se recriaram as condições para passos importantes, também de ordem ecumênica, de maior descentralização da igreja católica, de mais autonomia para dioceses, de mais liberdade para prover as necessidades eclesiais de cada diocese em termos de ordenação de padres, para que haja mais padres mesmo que sejam ordenadas pessoas casadas. Desenha-se pela frente uma atitude de muito mais aproximação e superação de desentendimentos dentro da igreja.

O papa disse que ‘Cristo bota fé nos jovens’. A juventude deve ser a aposta da igreja para evitar uma redução ainda maior de fiéis?

O interesse não é disputar clientes, fiéis de diversas opções religiosas. É muito clara da igreja, de reconhecer que não teve estrutura, que não conseguiu motivar de forma suficiente. Muitas pessoas estão em outras igrejas porque no momento de necessidade não encontraram os ministros da igreja católica. Foram atendidos em outras denominações religiosas por expedientes que cativam. É um fenômeno que preocupa. A igreja tem que se abrir mais, ir ao encontro das pessoas e não se fechar às suas próprias estruturas que não são suficientes hoje em dia. Não é uma disputa confessional. O fortalecimento da identidade católica não deve ser para se contrapor às outras igrejas, mas para fortalecer a postura de colaboração mútua entre todas.

Que análise o senhor fez do discurso da presidente Dilma?

A presidente foi bem explícita na coincidência de valores entre o governo e a igreja, que é portadora desses valores. É uma convergência muito interessante. Gostei que ela citou as pastorais sociais, me pareceu muito interessante. É um campo onde é muito clara a colaboração entre governos e atuação de grupos organizados de cristãos. Há o desafio de estabelecer um marco regulatório para que haja transparência.

Há críticas de parte da igreja em relação ao distanciamento do governo. O senhor concorda?

Há uma queixa generalizada de que, por exemplo, a reforma agrária está muito lenta. Mas isso revela a necessidade de rever os métodos e procedimentos e rever os destinatários da reforma agrária. Às vezes vemos que os desempregados da cidade são convocados para aumentar fileiras. De um lado tem a morosidade. Do outro, toda desapropriação tem que ser paga. Isso garante a tranquilidade dos proprietários, mas acarreta um peso muito grande. Mas existem campos em que a colaboração aumentou, como na Pastoral da Criança e na da Saúde.

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