‘Fala por gestos’ reforça opção do papa pelos pobres

Está na boca dos teólogos e na percepção dos fiéis: Francisco é um homem que fala por gestos. Dito isso, seu comportamento no primeiro dia de visita ao Brasil só reafirma o quão franciscano esse jesuíta tem se mostrado.

Tudo começou anteontem, em sua partida do aeroporto de Roma. Lá, ele não delegou sua valise a assessor algum. Quando subiu a escadaria do avião, a mala preta que levava na mão esquerda contrastava com sua batina branca.

A reportagem é de Ocimara Balmant e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 23-07-2013.

Durante o voo, Francisco saiu de seu assento na primeira classe e foi conversar com os jornalistas, que estavam acomodados na classe econômica. Lá, falou de forma paciente com cada um dos repórteres antes de voltar a seu lugar.

Ao chegar ao Rio de Janeiro, no meio da tarde, embarcou em um Fiat Idea – cujo preço varia de R$ 43 mil a R$ 52 mil -, um carro simples e sem blindagem. Pouco tempo após o início do trajeto do Galeão até o centro da cidade, a multidão conseguiu cercar o carro.

Os seguranças de terno preto que corriam ao lado do veículo não conseguiram deter os braços dos fiéis, que se esticavam na esperança de tocar o pontífice. A cena – de dar desespero a quem a assistia pela TV, por causa da situação vulnerável em que o papa estava – não o apavorou. Durante todo o itinerário, ele manteve o vidro completamente aberto. Tão aberto que uma mãe conseguiu fazer o filho chegar às mãos de Francisco, que não hesitou em puxá-lo para o carro e beijá-lo, antes de devolvê-lo.

Exemplo de Pedro

Em seu discurso no Palácio Guanabara, seu último compromisso do dia, Francisco parafraseou um trecho do livro bíblico Atos dos Apóstolos para lembrar sua opção franciscana pela vida humilde e sem ostentação. Ao dizer “não tenho ouro nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi dado: Jesus Cristo!”, Francisco assumiu a fala daquele que é considerado o primeiro papa da Igreja: São Pedro.

Este, nos primeiros anos do Cristianismo, ia ao templo acompanhado de outro discípulo, João, quando foi interpelado por um coxo que vivia na mendicância. Ao vê-lo, Pedro teria dito: “Não tenho prata e não tenho ouro, mas o que tenho te dou. Em nome de Jesus Cristo, o nazareno, levante-se e ande”. O homem ficou curado.

Ao lembrar a afirmação de São Pedro, Francisco mostra que tipo de Igreja ele quer perseguir. “A Igreja dos pobres para os pobres”, como prega Francisco, não é nada mais do que aquela formada pelos primeiros seguidores de Cristo.

Não vai surpreender, portanto, se, nos próximos dias, o papa aparecer com uma férula (cruz com haste usada pelo papa) fabricada por um morador de alguma favela carioca. No início deste mês, em sua primeira viagem papal, Francisco não usou a férula de ouro de seu antecessor. Na ilha de Lampedusa, no sul da Itália, o “jesuíta franciscano” apareceu com uma peça feita em madeira por imigrantes clandestinos que chegaram do norte da África em busca de uma vida melhor na Europa.

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