COP 23 – Indígenas brasileiros pedem por mais diálogo e respeito

por Alice Marcondes, enviada especial da Envolverde à COP23 –

Apesar de seu importante papel como guardiões das matas brasileiras, os indígenas são historicamente deixados de lado nos debates sobre conservação. Na COP 23 eles denunciam negligências e clamam aos homens brancos por mais diálogo

Aqui e acolá, nos corredores e salas de discussões da Conferência do Clima da ONU (COP 23), que acontece em Bonn, na Alemanha, podemos ver traços, assessórios e indumentárias bem comuns aos olhos dos brasileiros: é a delegação dos indígenas. Com suas roupas coloridas, cocares e penas, eles estão nas mesas de debates, nos protestos e nas negociações para dar aos governantes o recado de que suas vozes precisam ser ouvidas.

Nem todos vieram juntos à Alemanha. Alguns estão em Bonn com o apoio da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e outras organizações, e outros são figuras de destaque em mesas de discussão de instituições nacionais e do próprio governo brasileiro. Na segunda opção se enquadra o , que falou na terça-feira (14) aos governadores de toda Amazônia e ao ministro do Meio Ambiente José Sarney Filho, durante o evento Amazon Bonn.

Falando a própria língua, ele teve seu discurso traduzido por seu neto. O cacique foi enfático nas críticas “se continuarem desmatando a floresta e destruindo a águas o calor vai continuar aumentando e a humanidade corre risco de vida. Mas por que esse calor? Porque os rios estão secando eu pergunto a vocês. No Brasil o meu povo ancestral foi o primeiro que habitou aquela terra e depois o homem branco chegou e agora estamos assim”.

Ele pediu aos governadores presentes ajuda para que a demarcação de terras indígenas não seja ameaçada. “No rio onde eu habito morreu muito peixe e não sei se alguma pessoa fez aquilo, mas a gente está vendo o impacto que está causando. Por isso eu peço o apoio de vocês e não deixem diminuir as nossas terras. Porque demarcando uma terra indígena você está protegendo a terra. Eu sempre defendi meu povo e minhas terras por isso nunca aceitei dinheiro nenhum de madeireiro, não aceitei garimpeiros, nunca aceitei propostas dessas pessoas. E vou continuar defendendo as nossas terras”, disse Raoni, que fez ainda um chamado de união a todos os presentes: “A gente fala línguas diferentes, mas ainda somos irmãos e precisamos estar juntos, em paz e harmonia”.


Sonia Bone Guajajara, do povo Guajajara/Tentehar

Esse cuidado com a terra é também o principal argumento de Sonia Bone Guajajara, do povo Guajajara/Tentehar, que habita Terra Indígena Arariboia, no Maranhão. Ela conversou com a reportagem na saída de uma mesa de discussões e já com pressa para não atrasar para o próximo debate. A agenda de Sônia está cheia, mas ela faz questão de repetir na COP o máximo de vezes possível que “terra indígena é terra preservada” e que “a COP 23 precisa definir como será implementado o Acordo de Paris considerando o conhecimento tradicional, a cosmovisão dos povos indígenas”.

Ela faz ainda uma dura ponderação em relação ao governo brasileiro. “Estamos tempos de um extremismo conservador absurdo. Temos um governo que está avançando na destruição da política indigenistas e ambiental e junto com ela a vida dos indígenas. Vivemos momentos de violência, criminalização e assassinatos brutais. Nossas vozes não estão sendo escutadas”, diz. Sonia pede ainda cautela dos países nos investimentos enviados ao Brasil, afirmando que “tem que parar de enviar dinheiro a governos que trabalham apenas pelo fortalecimento do agronegócio. Governos que não protegem o meio ambiente. Apenas 30% do investimento internacional vai para o meio ambiente os outros 70% vão para o agronegócio”.

A falta de conversas efetivas é também a crítica de Isaac Piyãko, liderança indígena da etnia Ashaninka, que foi eleito em 2016 o primeiro prefeito indígena do estado do Acre. Governando a cidade de Marechal Thaumaturgo, na fronteira com o Peru, desde o início deste ano, ele afirma que, mesmo na posição que ocupa, tem dificuldade de diálogo. “No estado do Acre as escutas tem acontecido mais. Trabalhamos os plano de uso dos territórios das terras indígenas. Mas precisamos de um projeto mais macro. Nos demais estados da Amazônia precisamos avançar e no palácio do planalto o que se vê hoje é uma deficiência política de pessoas com uma visão estratégica de desenvolvimento sustentável”, diz.

Isaac participou hoje (15) de uma coletiva de imprensa promovida pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). Ao lado dele estava novamente Raoni, que concordou com a visão do prefeito em relação ao governo federal. “Desde de que tive contato com homens brancos conheço governantes. Conheci Juscelino Kubitschek, o general Rondon e a forma como eu conversei com eles foi super bem. Eu vi isso. Teve época que a gente não escutava tantas coisas ruins na política contra nós. Tudo começou no governo de Lula, depois seguiu com Dilma Roussef e agora continua esses ataques. Eu cacique penso que tenho que ter uma boa relação com homem branco, mas a partir do governo do homem branco não há respeito para com as populações indígenas”.

A COP 23 acontece até a próxima sexta-feira (17). As discussões realizadas no evento devem resultar em um conjunto de metas a serem implementadas para que os países consigam atingir o Acordo de Paris, firmado durante a COP 21, em 2015, e as regras que devem seguir em seus esforços de redução de emissões para que o aumento da temperatura global não ultrapasse o teto máximo estabelecido de 2ºC em relação aos níveis da era pré-industrial. (Envolverde)

 

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