Armando Mendes, o insistencialista

Quero falar de alguém que ousou pensar. Não viveu de modismos, não transformou o pensamento em slogans, não buscou o consenso apaziguador ou o reconhecimento efêmero.

Professor Armando Mendes 1924-2012

Quando ninguém falava em Amazônia, ele insistia que era preciso reinventá-la.
Quando ninguém falava em desenvolvimento sustentável, ele dizia que a Amazônia não é o almoxarifado do Planeta, mas que precisava promover física, mental, cultural, moral e espiritualmente aqueles que lá viviam.
Ele denunciou que a preservação da região exige um projeto amazônico, e que tal projeto não nos será dado de graça pela boa consciência planetária.
Ele apontou que a Amazônia não pode ser vista como são vistos os índios, como tutelados, incapazes. Para ele tal projeto só pode existir se for forjado a partir das entranhas da própria Amazônia, das legítimas aspirações dos 25 milhões de amazônidas que lá vivem.
Ele dizia, com graça mas sem brincadeira, que a Amazônia, aquela já degradada, era a Geni, do Chico Buarque, apedrejada pela ira mundial. E que a Amazônia preservada era a Amélia, de Ataulfo, que trabalha com fome para servir seu dono.
Para ele a Amazônia não pode ser mera extensão, mas intenção nacional e a sua preservação e valorização não são facultativas, mas dever impositivo do país.
O grande repto, nas suas palavras, era enfrentar o desafio de manter a Amazônia de pé, sua natura e sua cultura, todavia atuantes, não expectantes.
Mas ele não ficou só no pensar: colocou a mão na massa e criou o Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, um farol da inteligência amazônida que ilumina até hoje o pensamento sobre a região. E formulou para a Unesco um estudo sobre o potencial de cooperação no meio universitário regional, que inspirou a criação da UNAMAZ, rede universitária amazônica.
Foi um precursor da Pan-amazônia, o sonho de unir todos os países amazônicos em torno do imperativo do bioma e não das fronteiras políticas.
Ele se dizia um insistencialista. Sabia que não viveria para ver suas idéias serem assumidas como um projeto de Nação. Por isso mesmo não parou de pregar.
Aos 88 anos, debilitado, ainda encontrava forças para pregar sua palavra aos mais jovens.
Gostava de citar o padre Vieira, que dizia: “dificultosa empresa, mas importantíssima. Quando os remédios não tem bastante eficácia para curar a enfermidade, é necessário curar os remédios”.
Foi o que se propôs. Curar os remédios que estão descurando a Amazônia.
Sua obra persiste, insistencialista…
Daniel Mendes

Conheça um pouco mais sobre a vida profissonal e obra do Professor Armando Dias Mendes